Percurso da ação e da sanção

Os percursos da ação e da sanção são fases presentes no nível narrativo.

No percurso da ação organizam-se outros dois programas narrativos, vistos a partir do ponto de vista do sujeito: programa narrativo da competência e programa narrativo da performance.

O programa narrativo da competência é concebido como uma transformação de um estado disjuntivo em um estado conjuntivo, transformação essa realizada por um ator que é um sujeito transformador ou de fazer diferente do ator do sujeito de estado. Aqui, o valor do objeto é um valor modal, isso é, caracterizado pelas modalizações do querer, poder, saber e dever. Por fim, vale ressaltar que o valor do objeto é um valor necessário para que o sujeito possa vir a obter, na performance, o valor descritivo final, ou seja, o valor último que o sujeito da narrativa almeja alcançar.

Por outro, o programa narrativo da performance é concebido, também, como uma transformação de um estado disjuntivo em um estado conjuntivo, porém, aqui, a transformação é realizada por um ator que é ao mesmo tempo o sujeito transformador ou de fazer e o sujeito de estado. Aqui, no programa narrativo da performance, o valor do objeto é um valor descritivo, isso é, o valor final da ação realizada.

Agora, por fim, no percurso da sanção, o destinador vai recompensar ou punir o destinatário pela realização ou não realização do acordo estabelecido no percurso da manipulação. Aqui, o destinador vai julgar se o destinatário realizou a ação que lhe cabia, e, a partir daí, o destinador vai sancionar um prêmio ou um castigo, de acordo com a ação realizada pelo destinatário.

Acerca das modalidades (querer, poder, saber, dever), o poema O impossível carinho, de Manuel Bandeira, oferece-nos ótimos exemplos:

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
– Eu soubesse repor –
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!

No poema em questão, identificam-se dois sujeitos, a saber, sujeito um ou o que fala, e sujeito dois ou com quem fala. O sujeito dois ou com que fala tem um poder, um saber e talvez um querer proporcionar felicidade ao sujeito um ou o que fala. Por outro lado o sujeito um, o que fala, possui um querer, um não poder não saber retribuir a felicidade que o sujeito dois lhe proporciona, no caso do poema, as mais puras alegrias de tua infância. Dessa forma, observam-se as modalidades do querer, dever, poder, saber na relação entre dois sujeitos próximos.


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